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LUTO EM LEVERGER
Aos 75 anos, morre o ex-presidente da Câmara Municipal de Santo Antônio
13/01/18
Por: Redação - Leverger News
Fonte: Lana Mota

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ex-vereador e presidente da Câmara de Santo Antônio, Luiz Carlos Ribeiro faleceu aos 75 anos no final da tarde desta sexta (12).

Ele estava internado num leito de UTI do Hospital Santa Rosa desde o dia 4 de janeiro quando deu entrada na unidade para operar de um possível caso de câncer no intestino. No início do mês, amigos e familiares fizeram campanhas nas redes sociais pedindo doação de sangue para Ribeiro.

A morte de Luiz Ribeiro foi informada no Facebook por sua irmã Márcia Teresa Ribeiro. “É com muito pesar que comunico o falecimento de nosso irmão Luiz Carlos Ribeiro Ribeiro. Agradecemos a todos pelo carinho e orações. Informaremos local e horário do velório”, postou ela.

A prefeitura municipal de Santo Antônio vai decretar luto oficial de três dias, o Governo de Mato Grosso publicou nota de pesar na qual lamenta o falecimento do ator.

Além de ex-parlamentar por Santo Antônio, Luizinho como era carinhosamente reconhecido foi advogado, professor, escritor, diretor de teatro e pesquisador.

O velório de Luiz Carlos Ribeiro acontece em Cuiabá na Capela Jardins, a partir das 23h30, desta sexta-feira, na Sala Orquídeas. Segundo um membro da família, o sepultamento deverá ocorrer em sua terra natal, Leverger neste sábado (13).

Saiba mais sobre a vida do ilustre filho santo-antoniense ícone da Cultura no estado de Mato Grosso.

Fonte: Revista Lume

Eu devia ter 6 para 7 anos de idade quando comecei o meu processo de alfabetização na escola pública, em Santo Antônio de Leverger – MT, com a professora Maria Lacerda, uma educadora avançada para o seu tempo. Já quase encerrando o ano letivo, ela nos convidou para assistir a uma peça de teatro. Ficamos curiosos para saber o que era, pois nunca tínhamos assistido a uma peça. Ela tentou nos explicar o ato da representação teatral, mas as dúvidas permaneciam. O espetáculo foi encenado no salão da Câmara Municipal. Quando entramos no recinto, havia cadeiras para a plateia e ao fundo, um palco improvisado, tendo como coxias, lençóis brancos dependurados do teto. A iluminação era feita por lampiões Petromax, - época em que, não havia energia elétrica na cidade - que davam um toque mágico, projetando uma luz azulada em todo o ambiente. Após o terceiro toque de uma sineta, deu-se início à representação. Lembro-me que a trama cênica desenrolava em torno de uma empregada doméstica – interpretada pela nossa professora - acusada de ter roubado de sua patroa, um vidro de perfume, da marca Coty. Quando a peça terminou, falei comigo mesmo: quando eu crescer, vou fazer isso. Foi o meu primeiro alumbramento com o teatro. Aqui estou! 

Já morando na Capital mato-grossense, como você se projetou no teatro em Cuiabá, nacionalmente e para o mundo? 

De 1967 a 1969 exerci o magistério, na cadeira de língua portuguesa, na Escola Normal Regional Dr. Hermes Rodrigues de Alcântara. Junto com outros professores e alunos, criamos o primeiro grupo de danças folclóricas mato-grossenses, que participou de alguns festivais nacionais nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Goiânia e Mato Grosso do Sul. 

Em meados de 1.977, co-dirigi o Teatro Experimental de Cuiabá – TEC, juntamente com o diretor Ariel de Campos. Realizamos juntos dois circuitos estudantis de teatro, percorremos vários municípios do Estado, com a peça Arena Canta Zumbi, de Jean Francesco Guarnieri e Edu Lobo (anuário do teatro brasileiro (pg. 1983/1984). Com esse mesmo diretor, trabalhei como ator na peça “Quadro do Tempo”, inspirada em poemas do saudoso poeta Durval de França. No mesmo ano, fomos à Brasília, participar do Encontro Nacional de Teatro aonde veio o convite da FENATA - Federação Nacional de Teatro Amador -, para reestruturar o movimento de teatro em Mato Grosso. Nos anos de 1977/1978, criamos a Federação de Teatro Amador do Estado de Mato Grosso, tendo sido eleito por aclamação, seu primeiro Presidente. Participei também como membro federado da transformação da FENATA e da CONFENATA - Confe-deração Nacional de Teatro Amador -, da qual fui seu tesoureiro, na gestão do dramaturgo maranhense, Tácito Freire Borralho. A minha maior atuação foi na peça teatral Rio Abaixo, Rio Acima ou Ergue o Mocho e Vamos Palestrar (1978 - 1984), de Maria da Glória Albuês, que viajou várias capitais brasileiras e representou Mato Grosso, no ano de 1980, no Projeto Mambembão. Internacionalmente, participei da apresentação de Rio Abaixo, Rio Acima, em Quijaro, na Bolívia, (1981); Performance e interferência cênica realizada nos 450 anos de Anchieta em Coimbra, no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra, em Portugal, por ocasião da Comunicação: Anchieta em Mato Grosso: Autos da pregação universal, (1998); participação em apresentação do Grupo Musical de Sarã em Havana, (1990) e ainda, no espetáculo co-produzido com Almary Tangará, no Festival de Palmela – Portugal, (2000). 

Você sempre se dedicou à dramaturgia, qual o seu primeiro registro como dramaturgo e como prosseguiu seu trabalho autoral? 

A minha primeira escritura cênica aconteceu com a peça: A Juventude se Escondeu de Mim (anuário do teatro brasileiro 1977, pg.83), protagonizada pelos atores Hugo Taques e Laura Lucena. Na década de 80 escrevi duas peças teatrais: No tempo de Bento e Tomázia em comemoração ao bicentenário da cidade de Poconé - MT e, A Canção de Mãe Maria, encenada em um Congresso Internacional do Rotary Clube. Em 1983/1984 encenei dois Autos Natalinos Pantaneiros, a convite de Jaime Okamura, então diretor da Turimat. Em 1984, escrevi e dirigi a peça, Gudibai Meu Boizinho. Em 1986, a convite da Supervisora do Teatro Universitário, Glória Albuês, encenei, no Campus da Universidade Federal de Mato Grosso, Auto Natalino Latino Americano. Nesse mesmo ano, na companhia da atriz Lúcia Palma, dirigi, às margens do Rio Cuiabá, a interferência cênica, Rio Que te Quero Vivo, com poemas da nossa autoria. Em 1989, escrevi em parceria com o ator e diretor Carlos Ferreira, o espetáculo cênico musical, Poema Caboclo, onde atuei também como ator. Na década de 1990, escrevi dois textos teatrais, gênero teatro do absurdo, que foram encenados pelos atores Liu Arruda e Ivan Belém: A Virgindade Contestada e Vespa Sete, inspirados em contos de Tereza Albuês. Especialmente para o ator Liu Arruda, escrevi: Pelos Cotovelos, nosso grande sucesso; espetáculo encenado até a sua “passagem”. Em 2001, através do projeto, Tom do Pantanal (Fundação Roberto Marinho) participei como coautor do texto temático: O Pantanal e Sua Cultura Regional, veiculado pela TV Cultura. Em 2002, sob a coordenação da professora Dra. Michele Sato (UFMT), publicamos: Sentidos Pantaneiros, pela KCM Editora. Em 2004, em comemoração aos 80º ano da imigração japonesa em Mato Grosso, escrevi e dirigi em parceria com o ator e diretor Carlos Ferreira, Uma Noite no Japão, a convite da Associação Nipônica do Estado de Mato Grosso. De 2008 a 2013, coloquei na cena mato-grossense, o espetáculo lúdico musical, A Mala de Fugir e Outras Histórias, onde também atuei como ator, sob a direção de Júlio Camargo. 

A sua produção na dramaturgia, tem volume significativo para a história do teatro mato-grossense, a que você atribui esse estímulo? 

O que me estimulou a escrever textos foi a dificuldade que tínhamos em encontrar textos teatrais que falasse sócio culturalmente da nossa região, do eco sistema e da realidade cultural mato-grossense. Foi a partir da peça Rio Abaixo, Rio Acima, de Maria da Gloria Albuês, que essa realidade dramatúrgica nos instigou a criar textos, onde as histórias aconteciam dentro do nosso universo geográfico cultural. Gloria Albuês é a precursora da criação de uma dramaturgia eminentemente mato-grossense. Aprendi muito com ela. Uma Mestra! 

Você é autor de vários contos, eles já foram publicados e que universo cênico imagético aparecem no seu contexto? 

Reuni grande parte dos meus contos, no meu primeiro livro publicado em 2006, A Mala de Fugir e Outros Contos, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, publicado pela Carlini & Caniato. 

O meu espaço geográfico é o pantanal mato-grossense. A minha memória lúdico-imagética são os chapadões da baixada cuiabana, a vegetação retorcida do nosso cerrado. O meu índice iconográfico, desde a minha vinda a este planeta é o Morro de Santo Antônio. Os contos, histórias, as minhas peças teatrais, na sua maioria, são ambientadas dentro de um reino mágico, encantado, que se chama: Morená - Morada do Sol e da Lua - espaço mítico dos povos Kamaiurá. Morená, que por analogia mítica é o pantanal mato-grossense, com suas imensas baias, com seus bandos de pássaros, com seus encantos e mistérios. Mora-da de Siá Mariana, nossa Yara pantaneira, dos deuses subaquáticos, emoldurados por uma flora de agua-pés e camalotes. Daí a minha obrigação de contar e cantar em primeiro lugar, a minha “aldeia”. 

Você tem presença significativa na área da arte/educação. Como é a sua atuação como arte/educador e que projetos têm desenvolvido? 

Participei do projeto: Terra, Uma Proposta de Interação Escola Comunidade (1982 - 1984 MEC/FUNARTE), realizada pelo Grupo Terra de Teatro, nas comunidades de Sucuri e São Gonçalo Beira Rio. Essa experiência encontra-se registrada no vídeo, A Morada da Juruti, produzido pela FUNARTE, onde relata toda a experiência lúdica pedagógica do projeto. No primeiro ano, o projeto foi coordenado pela teatróloga e cineasta, Maria da Gloria Albuês; depois passei a coordená-lo, até a sua conclusão. A nossa equipe era formada pelos atores e arte/educadores: Wagton Douglas Fonseca, Marcio Aurélio Silva Santos, Gilberto Fraga de Melo, Magda Cintra, pela pedagoga Ana Maria Lopes e pelos Professores Elzira Cavalcante da Silva Celso. 

Junto aos povos indígenas, ministrei oficina de teatro em terras Paresi e Umutina (2006). O projeto Roda de Saberes foi realizado em terras Paresi, onde inclui uma oficina de teatro para 40 jovens indígenas de várias etnias. Em 2006/2007 ministrei uma oficina teatral em terras Umutina, quando fui convidado para ser consultor voluntário do grupo teatral Nação Nativa, na montagem da peça Haikapu – Criador do Mundo, dirigida por Naine Terena. 

Não posso esquecer-me do Projeto: UNESTADO, da Universidade Federal de Mato Grosso, sob a coordenação do Professor Abílio Camilo Fernandes, na década de 1990. Durante os dois anos, aproximadamente, de existência do projeto, ministrei oficinas de arte/educação para professores, alunos e pessoas das comunidades visitadas. Levei para a sala de aula a experiência vivenciada nas comunidades de Sucuri e de São Gonçalo Beira Rio. 

Esteve na cena teatral na capital, de sua autoria, a peça Fica, Pedro!, que chamou a atenção de vários olhares conceituados, para a obra, inclusive, por Dom Pedro Casaldáliga e pela escritora Marilza Ribeiro. Como se deu a produção dessa dramaturgia e de que ela trata? 

Escrevi a peça Fica, Pedro!, em 2008 que, ao ser conhecida por Dom Pedro Casaldáliga, foi por ele alcunhada de libelo dramático, dizendo ser a minha mais inédita obra dramática e ainda, tem sido acolhida pela crítica como obra singular em que, desde a perspectiva da História Cultural e da Literatura Regional, mescla fatos e ficções e fazem dela, um signo de testemunho. A peça trata da denúncia social polifônica, que dá voz àqueles sem-terra, indígenas, negros e injustiçados, e exalta de maneira inigualável a luta de Dom Pedro Casaldáliga, bispo espanhol, natural da Catalunha, ameaçado de morte várias vezes durante regime militar, por posicionar-se em favor dos oprimidos. 

A escritora Marilza Ribeiro, registrou em sua crítica para o jornal, A Notícia MT, de 17/09/2009, sobre a montagem cênica da peça, o seguinte fragmento: 

A voz do anjo trapezista pendurado no ar, ante nossos olhos, vai desembrulhando desde o início a memória de uma triste história – a jornada heróica de um Pastor religioso em sua luta pela vida dos marginalizados. Ali no palco, a cena de um frágil senhor iluminado pela extrema coragem e solidão como réu do arrogante poder inquisidor da sua igreja. O anjo circense é portador da rigorosa narração, acendendo em nós – o público – o interesse, a emoção, a perplexidade – onde atores e atrizes encarnam a dança, as vozes, o canto e a crueza do drama coletivo dos excluídos da terra mato-grossense [...] resgata a selvageria das emoções e o dilaceramento na loucura dos limites extremos do amor, da dor, do ódio e da agonia humana. 

Ainda em 2009, a peça Ficou em cartaz por três meses consecutivos no teatro da TV Centro América, com sucesso de público e aval do próprio Dom Pedro Casaldáliga que, ao ler o texto, disse que dele não exclui-ria nada.

Como se deu a sua parceria com a Companhia de Teatro Cena Onze? 

Em 2009, o dramaturgo Flávio Ferreira solicitou-me um texto inédito, então lhe falei sobre Fica, Pedro! Po-rém, a obra se encontrava inacabada, faltava alguns dados mais concretos sobre a vida e a obra de Dom Pedro. Era preciso entrevistá-lo. Na época encontrava-me impossibilitado de visitá-lo. Foi aí que entrou a parceria textual com o dramaturgo Flavio Ferreira, que o visitou em São Felix do Araguaia, fez a entrevista e escreveu as cenas que faltavam. Dividi com muito orgulho a parceria do texto com ele, meu amigo, irmão companheiro de longos janeiros. 

O que te levou a escrever uma peça teatral, sobre um Bispo com tantas polêmicas sobre sua luta em favor dos miseráveis e ainda, jurado de morte? 

Fica, Pedro! É libelo dramático que escrevi em solidariedade a Dom Pedro Casaldáliga, escritor, poeta, drama-turgo, Bispo Emérito da Prelazia de São Felix do Araguaia em Mato Grosso. Trata-se de uma homenagem ao seu apostolado, pelos seus serviços sociais e humanitários prestados ao nosso País, ao povo do Ara-guaia, por mais de meio século. É um texto provocador porque é engajado nas causas sociais, de maneira que traz a carga do mal e da injustiça na personagem do Inquisidor que acusa Dom Pedro Casaldáliga de incitar o povo contra a ordem religiosa e social. Traz nas vozes de outras personagens o tom de denúncia quando exaltam artigos da Constituição Brasileira em favor da liberdade de ir e vir, do direito de igualdade e de propriedade. Apesar de ser um texto ficcional, contudo é mesclado de muitas verdades e fatos histó-ricos que contam a vida e a luta deste homem de Deus.


Pelo que vemos, a sua produção artística, no momento, está em constante movimento. O que você tem na “manga” para o próximo biênio? 

Desde 2015, participo com a Professora Marília Beatriz de Figueiredo Leite, presidente da AML, coadjuva-do pelo grupo Os Crônicos, formado pelos atores Carlos Ferreira, Ivan Belém, Wagton Douglas, Claudete Jaudy, Lucia Palma, Mauricio de Moraes, J. Astrevo Aguiar, Vital Siqueira, Moema Leite e Wanda Marchetti. Trata-se de um experimento teatral que tem como foco, promover intervenções cênicas em espaços não convencionais à representação teatral. A partir de abril passado, participo como ator convidado na peça: Homem do Barranco, de autoria e interpretação do ator, diretor e dramaturgo Carlos Ferreira, sob a direção de J. Astrevo Aguiar. Para o próximo biênio tenho três projetos na manga. Ainda este ano, entre os meses de maio a junho, estamos lançando a obra Fica, Pedro!, escrita em parceria com Flavio Ferreira, edição bilíngue, português/espanhol, tradução de Silvana Teixeira e revisão de Marcial Izquierdo, publicada pela Entrelinhas. O lançamento será em São Felix do Araguaia, com a presença de Dom Pedro e leitura dramatizada de algumas cenas da peça. Ainda neste ano, a convite da Professora, Dra. Michele Sato, da UFMT, irei ministrar uma oficina de teatro para alunos dos cursos de graduação, mestrado e doutorado. No próximo ano, a Companhia de Teatro Cena Onze irá reencenar a peça, Fica, Pedro!, com textos interpretados em português e espanhol. O terceiro projeto é a realização da oficina: A Geometria Sagrada do Rito, uma imersão antropológica em nossa cultura popular e indígena. Depois estou pensando em me aposentar, pegar minha Mala de Fugir e sair andando mundo afora, me transformar em um griot na acepção lata e estrito senso da palavra. Vou sair tocando o meu tambor e contando histórias dos nossos heróis míticos Kamaiurá, dos nossos mitos amazônicos e pantaneiros. Oficio que amo de paixão!

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